sábado, 19 de abril de 2014

A surdocegueira e a DMU



No que se diferenciam a surdocegueira e a DMU?

Cristiane Sousa De Assis

A surdocegueira é uma deficiência que apresenta a perda auditiva e visual de forma concomitante, em diferentes graus. Contudo, é caracterizada por ser uma deficiência única, e não a “junção” de duas deficiências (auditiva e visual). Conforme explica Silva (2010), abrange o comprometimento dos sentidos da visão e da audição, de tal maneira que impossibilita o uso dos outros sentidos auxiliadores à distância, causando grande dificuldade na comunicação e na compreensão de mundo. Ela pode ser congênita ou adquirida e apresentam diversas características, desde as que apresentam perda total visual e auditiva, até aquelas que apresentam um bom resíduo visual e/ou um bom resíduo auditivo.

Já a Deficiência Múltipla (DMU) está associada a duas ou mais deficiências. É aquela que apresenta duas ou mais deficiências associadas, acarretando diferenças no desenvolvimento global da pessoa (deficiência visual associado à paralisia cerebral; deficiência visual e deficiência intelectual; deficiência visual e autismo; deficiência auditiva e autismo; deficiência auditiva e deficiência intelectual; deficiência auditiva e paralisia cerebral; surdocegueira congênita - sem um sistema de comunicação estabelecido).  Para que as manifestações das pessoas com DMU sejam possíveis de serem expressas e compreendidas, faz-se necessário construir modos de comunicação apropriados a cada caso, procurando proporcionar estratégias, recursos e uma rotina que privilegie o desenvolvimento das interações, cuidados pessoais e coletivos. As oportunidades de sinalização por meio de figuras, fotos ou símbolos para ampliação do que essa pessoa deseja expressar em vários ambientes e locais, é extremamente relevante. Quanto maior a interação com as atividades práticas, a fim de generalizar os conceitos aprendidos no cotidiano do aluno, melhores os resultados.  

Para Serpa (2002), os sistemas de comunicação são diversos, e geralmente envolvem as mãos da pessoa com surdocegueira e do seu interlocutor e/ou intérprete. Assim, conhecer as limitações da pessoa com surdocegeira para que seja encontrada a melhor forma de mediar os processos de cognição e interação, é essencial.

Especialistas da área, a exemplo de Bersch R  e Sartoretto (2010), afirmam que o aprimoramento de um código de comunicação com uma pessoa com DMU se dá através de planejamento adequado, metodologia de comunicação apropriada, estímulo constante à expressão de desejos e opiniões do próprio aluno.

Em geral, as problemáticas encontradas são: dificuldades em elaborar a consciência da relação dos segmentos corporais em si e destes com objetos (fase comum a todas as crianças); limitações para o movimento e funcionamento do próprio corpo; insegurança pessoal; atraso no desenvolvimento motor e afetivo pode ser atribuído à qualidade e quantidade das interações mantidas com o ambiente (BRASIL, 1996, p. 13).

Silva (2010), afirma que se uma pessoa adquire a surdocegueira antes da aquisição da linguagem - seja oral ou gestual, deve ser considerada como pré-linguística. Já àquelas que adquiriram a surdocegueira após a aquisição da linguagem devem ser consideradas como pós-linguísticas. Na fase pré-linguística, a comunicação dar-se-á por meio da utilização de objetos de referência, onde os objetos devem estar relacionados às atividades desenvolvidas. Os objetos deverão ser colocados sequencialmente dentro de caixas, pela ordem em que as atividades diárias se realizarão, objetivando funcionar como uma agenda. Na fase pós-linguística as formas de comunicação são diferentes, pois a pessoa já adquiriu anteriormente uma língua, seja o Português ou Libras. 

Grosso modo, o uso da Língua de sinais tátil corresponde à língua de sinais tradicionalmente usada por surdos, adaptada ao tato, cuja utilização dos sinais adaptados, consiste em viabilizar a compreensão de toda informação pela pessoa com surdocegueira.

À medida que a pessoa desenvolve seu poder de abstração, o professor, progressivamente, deverá utilizar pistas mais exigentes no nível da simbolização. Sabe-se que a língua de sinais tátil é o sistema mais utilizado pelos surdos e pode ser adaptada ao tato quando utilizada com pessoas surdocegas. Este sistema segue as mesmas regras e convenções do braile tradicional, cujo dedo indicador e dedo médio representam a cela braile e em cada falange dos dedos representa o espaço de marcação do ponto. Consiste no registro de cada letra de uma palavra na palma da mão da pessoa com surdocegueira ou em outras partes de seu corpo. Além disso, é necessário que a mensagem seja escrita, preferencialmente, com letras maiúsculas. O registro das letras deverá ser realizado com o dedo indicador do interlocutor no centro da palma da mão ou em outras partes do corpo da pessoa surdocega para que ela perceba, por meio do tato, cada letra registrada. (BRASIL, 2006, p.30).

Faz-se necessário, considerar o período no qual ocorreu a perda dos sentidos, em virtude das especificidades de cada pessoa:  há pessoas que eram cegas e se tornaram surdas;  há pessoas que eram surdas e se tornaram cegas; há pessoas que se tornaram surdocegas e há pessoas que nasceram surdocegas/ou se tornaram surdocegas antes de terem aprendido alguma linguagem.  Bosco, Mesquita e Maia (2010), afirmam que as pessoas com deficiência múltipla apresentam características específicas, com necessidades únicas. Ou seja, não apresentam necessariamente os mesmos tipos de deficiência, podem apresentar cegueira e deficiência mental; deficiência auditiva e deficiência mental; deficiência auditiva e autismo, entre outros.

Neste sentido, é preciso desenvolver atividades de maneira multissensorial para garantir o aproveitamento de todos os sentidos possíveis, no intuito de proporcionar aprendizagens significativas, favorecendo a autonomia do aluno. Outra estratégia importante é a técnica da “mão sob mão”, onde é colocada a mão sob a mão da pessoa com surdocegueira ou deficiência múltipla e assim orienta o seu movimento sem a controlar, permitindo desta forma que explore o ambiente, o seu corpo ou o corpo do seu orientador.  

Rowland e Schweigert (2005) destaca a utilização de símbolos tangíveis, como o uso de fotos, objetos concretos, desenhos, contornos, dentre outros, que representem algo que se deseje transmitir. Eles alertam que as pessoas com deficiência múltipla necessitam de um ambiente reativo, que responda a suas iniciativas. Seu tempo de resposta deve ser respeitado e a habilidades de fazer escolhas deve estar dentro de suas atividades programadas. Neste contexto, é fundamental a colaboração da família e de todos os profissionais envolvidos.

De modo geral, inúmeros métodos e estratégias são importantes para ajudar pessoas com surdocegueira e deficiências múltiplas à aquisição da comunicação. As principais necessidades dos surdocegos e das pessoas com DMU se concentram em disponibilizar mecanismos e recursos em busca de favorecer a evolução da comunicação e o desenvolvimento do esquema corporal, para ter acesso à vida social e escolar, favorecendo a interação da pessoa com deficiência ao meio em que ela vive.


 Referências Bibliográficas:

BOSCO, Ismênia C. M. G.; MESQUITA, Sandra R. S. H.; MAIA, Shirley R. Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar - Fascículo 05: Surdocegueira e Deficiência Múltipla (2010).

BRASIL, Ministério da Educação e da Cultura. Saberes e Práticas da Inclusão. Dificuldades de comunicação e sinalização: Surdocegueira / múltipla deficiência sensorial Secretaria de Educação Especial – Brasília: MEC/SEESP – 2006.

ROWLAND, Charity; SCHWEIGERT, Philip. Solucões Tangíveis para Indivíduos Com Deficiência Múltipla e ou com Surdocegueira(2005).

SERPA. Ximena. Comunicação para pessoas surdocegas. Colômbia, 2002.

SILVA, Alexandre Marciano da. Educação do Surdocego:Transpondo Obstáculos Através do Estabelecimento da Comunicação. Unopar, 2010.

Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar. Surdocegueira e Deficiência Múltipla. MEC, 2010.

Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar. Os Alunos com Deficiência Visual: Baixa Visão e Cegueira. MEC 2010.



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