segunda-feira, 17 de março de 2014

Educação Escolar de Pessoas com Surdez- Atendimento Educacional
 Especializado em Construção

ASSIS, Cristiane Sousa De.


Este texto busca refletir sobre o atendimento educacional especializado e a educação escolar de pessoas com surdez à luz do pensamento de Damázio (2010). Segundo esta autora (ibid), é necessário considerar a questão do ser humano descentrado, constituído de varias linguagens e potencialidades, sobretudo romper o embate politico e epistemológico entre gestualistas e oralistas, compreendendo a surdez como uma privação sensorial que interfere diretamente na comunicação.

De acordo com as suas pesquisas, as pessoas com surdez precisam de ambientes educacionais estimuladores que desafiem o pensamento e exercitem suas capacidades cognitivas. Ressalta ainda que o problema e o fracasso na Escola das pessoas com surdez não deve continuar centrado na língua em si, mas na qualidade das práticas pedagógicas:

O problema da educação das pessoas com surdez não pode continuar centrado nessa ou naquela língua, como ficou até agora, mas deve levar-nos a compreender que o foco do fracasso escolar não está só nessa questão, mas também na qualidade e na eficiência das práticas pedagógicas. (DAMÁZIO, 2010, p.48)


Nessa perspectiva, o serviço complementar do Atendimento Educacional Especializado precisa ser pensado em redes interligadas, sem dicotomizações ou reducionismos. As pessoas com surdez precisam de ambientes educacionais estimuladores, que explore suas capacidades, em todos os sentidos:

Os processos perceptivos, linguísticos e cognitivos das pessoas com surdez poderão ser estimulados e desenvolvidos, tornando-as sujeitos capazes, produtivos e constituídos de várias linguagens, com potencialidade para adquirir e desenvolver não somente os processos visuais-gestuais, mas também ler e escrever as línguas em seus entornos e, se desejar, também falar. (DAMÁZIO, 2010, p.48)


Assim, faz-se necessário construir um ambiente de comunicação e interação, oportunizando o acesso a Libras e a Língua Portuguesa escrita, por meio de uma abordagem bilíngue e de um ambiente acolhedor, pois o cotidiano escolar adquire maior significado quando leva em conta todas as vivencias contextuais experimentadas.

De acordo com Damázio (2010), o Atendimento Educacional Especializado (AEE) deve ser realizado em três momentos distintos: o AEE em LIBRAS onde é necessário estabelecer parcerias que favoreçam ao aluno com surdez na compreensão dos conteúdos curriculares; o AEE de LIBRAS onde os alunos com surdez terão aulas de LIBRAS para a aquisição dos termos científicos, realizado por um professor/instrutor de LIBRAS, preferencialmente surdo; e o AEE para o ensino da Língua Portuguesa escrita, onde se trabalha as especificidades dessa língua para pessoas com surdez.

É importante compreender a importância da organização didática; fazer uso de imagens e de recursos, buscando priorizar o acesso às duas línguas (Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa) de forma simultânea, buscando refletir sobre a concepção de língua como lugar de interlocução e interação humana, no sentido de compreender o outro e de se fazer compreender por ele. Contudo, há que considerar ainda que, mais do que a utilização de uma língua, os alunos com surdez precisam de ambientes educacionais estimuladores. O que significa dizer que a aquisição da Língua de Sinais não é garantia de uma aprendizagem significativa.  

A proposta de educação escolar inclusiva é um desafio, sem dúvida, contudo, é preciso ultrapassar a visão que reduz os problemas de escolarização das pessoas com surdez ao uso desta ou daquela língua. O AEE para alunos com surdez na perspectiva inclusiva estabelece como ponto de partida a compreensão e o reconhecimento do potencial e das capacidades de cada pessoa.

Em síntese, há que se pensar em uma escola que se organiza para todos e na qual todas as diferenças sejam reconhecidas e valorizadas, sabendo atuar e interagir, independentemente da deficiência. Pessoas com surdez têm direito a uma educação bilíngue que priorize a língua dos sinais como sua primeira língua, bem como a língua portuguesa como segunda língua.

É preciso refletir sobre a postura do professor e repensar novas práticas educativas a partir das propostas de inclusão, bem como pensar sobre sua operacionalização, considerando todas as adversidades e carências humanas e/ou materiais, que fazem parte do contexto escolar, bem como fazer uso dos processos cognitivos e simbólicos visuais como formas alternativas de apropriação da linguagem, dando atenção especial à comunicação visual (gestos, mímicas, desenhos e língua de sinais) como forma de interação, buscando sempre valorizar o potencial e a capacidade das pessoas.


Referência: 
DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo; FERREIRA, Josimário de Paula. Educação Escolar de Pessoas com Surdez - Atendimento Educacional Especializado em Construção. Revista Inclusão: Brasília: MEC, V.5, 2010. p. 46-57.

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